ColunaFilosofiaPolíticaPsicologiaSociologia

Humanos, unidos pelo medo

Em 1985, a banda Dire Straits lançou o álbum Brothers in Arms (“Irmãos de armas”, em tradução livre, e, em um sentido mais existencial , “Companheiros de batalha”), em que existe uma canção de mesmo nome. Escrita em 1982, no contexto do envolvimento do Reino Unido na Guerra das Malvinas (1982), a canção emerge como um lamento anti-guerra. Na voz de Mark Knopfler, não há celebração do combate, mas o registro íntimo dos momentos finais de um soldado ferido que, diante da morte, já não fala de vitória, mas de despedida. Não há heroísmo; há desgaste e lucidez, e a fraternidade evocada pela canção nasce do risco compartilhado, não da harmonia.

Apesar de ouvir Dire Straits desde a infância, eu não conhecia essa canção ou talvez já a tivesse ouvido sem ainda possuir as experiências necessárias para percebê-la e buscar entendê-la. Fui encontrá-la como epígrafe de Batismo de Fogo (2015), quinto livro da saga The Witcher, do economista e escritor Andrzej Sapkowski, em 2020, durante a pandemia de Covid-19, enquanto lia a saga e escrevia meu livro O Refúgio dos Lobos (2022). Batismo de Fogo é um livro de fantasia, mas uma fantasia que desmonta ilusões. O mundo de Sapkowski é atravessado por múltiplas raças – humanos, elfos, anões, bruxos, vampiros, gnomos, ananicos – cujas fronteiras não são apenas biológicas, mas políticas, históricas e marcadas por ressentimentos. A guerra entre Nilfgaard e os Reinos do Nortenão é mero pano de fundo, mas uma força corrosiva que fragmenta estruturas de convivência, deixando em seu lugar milhares de mortos, vilarejos queimados, deslocamentos forçados, soldados exaustos e uma paisagem social em decomposição.

Nesse cenário, a companhia que se forma ao redor do protagonista, Geralt de Rívia, um bruxo mutante, não constitui uma comunidade ideal, mas uma aliança formada pelas circunstâncias. Ao seu lado estão Jaskier, um bardo humano; Milva, uma arqueira humana criada entre as dríades; Regis, um vampiro; Cahir, um cavaleiro humano de Nilfgaard; e Angoulême, uma jovem humana moldada pela vida na marginalidade. Indivíduos marcados por diferenças profundas que, em circunstâncias ordinárias, bastariam para separá-los passam a compartilhar um destino não por afinidade, mas por necessidade. A ameaça suspende a diferença. A epígrafe do livro, assim, deixa de ser mero ornamento e se torna chave de interpretação. Antes mesmo que a narrativa avance, a música já enuncia o princípio que a sustenta: a fraternidade mais intensa nasce quando o horizonte se estreita e o perigo se aproxima. O que a fantasia dramatiza, a filosofia descreve.

Não por acaso, os versos escolhidos por Sapkowski para abrir o romance evocam sobre “campos de destruição” e “batismos de fogo”, enquanto voz da canção testemunha o sofrimento do outro em meio ao avanço da batalha, reconhecendo que, “no medo e na apreensão”, ele não foi abandonado por seus “irmãos de armas”. A fraternidade, ali, não nasce da paz, mas da travessia compartilhada do medo e do sofrimento.

There’s so many different worlds / So many different suns / And we have just one world / But we live in different ones (“Existem tantos mundos diferentes / Tantos sóis diferentes / E nós temos apenas um mundo / Mas vivemos em mundos diferentes”, em tradução livre). Os versos não descrevem apenas diversidade, mas fragmentação. Não se trata de múltiplos mundos em coexistência harmônica, mas de mundos que se sobrepõem uns aos outros sem se conhecer mesmo existindo em um mundo compartilhado. Compartilhamos o mesmo espaço físico, mas não o mesmo horizonte de sentido. Habitamos a mesma realidade, mas interpretamos ameaças, pertencimentos e valores a partir de referências distintas e, muitas vezes, inconciliáveis. É nesse descompasso que o outro deixa de ser apenas diferente e passa a ser percebido como risco. O que a música sugere com melancolia, a história confirma com frequência: não são apenas conflitos que nos separam, mas as formas distintas de habitar o mesmo mundo.

No Leviatã (1651), ao descrever o “estado de natureza”, a condição em que “não há poder comum capaz de manter os homens em respeito”, Thomas Hobbes (1588-1679) identifica não uma essência maligna, mas uma estrutura de vulnerabilidade, desconfiança e exposição recíprocas, na qual há “um constante temor e perigo de morte violenta” e em que a vida se torna “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” (HOBBES, 1651, p. 46). Não é uma tese sobre maldade inata, mas sobre insegurança. Por isso, ele afirma que “as paixões que fazem os homens tender para a paz são o medo da morte, o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável e a esperança de consegui-las através do trabalho” (HOBBES, 1651, p. 48), indicando que a paz nasce menos da benevolência do que da tentativa de escapar da insegurança permanente. Assim, para Hobbes, o Estado nasce, como poder comum destinado a conter o risco constante da aniquilação. Antes da lei, há medo; antes da justiça, há sobrevivência. O medo organiza o poder e, com ele, o pertencimento.

No campo de batalha, literal ou simbólico, a ameaça externa suspende antagonismos internos, organiza o “nós” e dá nitidez à identidade coletiva por meio da exclusão dos outros, “os que não são nós”. No ensaio Construir o inimigo (2011), o filósofo Umberto Eco argumenta que as sociedades não apenas encontram inimigos, mas os constroem, pois o inimigo cumpre a função estrutural de fornecer o contorno negativo a partir do qual definimos quem somos. Não se trata apenas de reagir a ameaças reais, mas de sustentar identidades que dependem da existência de algo a ser temido. O inimigo não é um acidente, mas uma estrutura construída.

Os psicólogos sociais Henri Tajfel (1919-1982) e John C. Turner (1947-2011), em The Social Identity Theory of Intergroup Behavior (1986) (“A teoria da identidade social do comportamento intergrupal”, em tradução livre), demonstraram que a simples divisão de indivíduos em grupos arbitrários já é suficiente para produzir favoritismo interno e discriminação externa, mesmo na ausência de conflito real. A tendência a construir um “nós” e um “eles”, portanto, não depende apenas de ameaças objetivas, reais, concretas, mas de mecanismos profundos da própria mente humana que influenciam a forma como percebemos os outros e o mundo ao nosso redor.

No campo da teoria política, em O conceito do Político (2009), Carl Schmitt (1888-1985) leva ao limite a lógica segundo a qual o político se estrutura na distinção entre “amigo” e “inimigo”, em que o “outro” é percebido, “em um sentido especialmente intenso, existencialmente algo diferente e desconhecido” (SCHMITT, 2009, p. 28), a ponto de produzir separação coletiva, estruturar conflitos e definir o próprio sentido de pertencimento coletivo. Controverso por suas críticas ao liberalismo, ao parlamentarismo democrático e ao cosmopolitismo liberal, além de sua filiação ao Partido Nazista, Schmitt aparece aqui não como referência normativa, mas porque sua formulação extrema ajuda a tornar visível uma lógica histórica de pertencimento pela intensificação da diferença

Mas o pertencimento coletivo não se organiza apenas pela oposição a inimigos, externos ou internos. Na sociologia, em O suicídio (2000), Émile Durkheim (1858-1917) observou que a perda de referências comuns pode gerar aquilo que chamou de anomia, um estado em que a coesão social (a força que mantém unidos os indivíduos e sustenta a vida coletiva) se fragiliza não pela presença do conflito, mas pela dissolução das normas, limites e referências compartilhadas que orientavam pertencimentos, expectativas e formas de convivência. Ao analisar esse fenômeno, especialmente entre indivíduos socialmente menos submetidos a limites coletivos, como os mais abastados, Durkheim observou que aqueles que “acima de si só têm o vazio tendem a perder-se nele quando já não existe uma força que os segure” (DURKHEIM, 2000, p. 328).

Ameaça, medo, coesão, poder. Sob diferentes formas, o padrão se repete ao longo da história. A fraternidade das armas é intensa porque nasce da consciência compartilhada da finitude, e é exatamente por isso que ela depende da continuidade da ameaça que a sustenta. Quando o inimigo desaparece, ele tende a ser reinventado; quando o externo enfraquece, o interno é descoberto. Desse modo, torna-se mais fácil marchar juntos contra alguém do que sustentar a convivência com aqueles de quem divergimos.

Se o inimigo desaparece, não se perde apenas a ameaça, mas o eixo que organizava o pertencimento. A paz, nesse sentido, não é apenas a suspensão da violência, mas a suspensão de uma referência negativa que estruturava identidades. Quando o pertencimento é organizado sobretudo pela oposição, a ausência do adversário pode dificultar a manutenção da coesão social, como se o desaparecimento do perigo revelasse um vazio antes oculto. Não se trata de uma falha moral acidental, mas de um traço estrutural. É mais fácil unir pessoas contra um inimigo do que construir vínculos duradouros entre diferenças, justamente porque tais vínculos exigem algo mais difícil do que o medo: confiança, convivência e reconhecimento mútuo.

No final da canção, canta-se que Now the sun’s gone to hell / And moon’s riding high (“Agora o sol foi para o inferno / E a lua sobe alta”), antes de um gesto tão simples quanto devastador: “let me bid you farewell” (“deixe-me me despedir”), seguido da constatação inevitável de que every man has to die (“todo homem tem de morrer”). Não há qualquer sinal de triunfo nessa imagem, mas um reconhecimento incontornável da finitude e da despedida como destino comum. A guerra não promete eternidade, mas uma sucessão de despedidas.

E o arremate da canção vem com But it’s written in the starlight / And every line on your palm / We’re fools to make war / On our brothers in arms (“Mas está escrito na luz das estrelas / E em cada linha na palma de sua mão / Que nós somos tolos por fazer guerra / Contra nossos irmãos de armas”), versos nos quais Mark Knopfler parece ampliar a fraternidade para além do campo de batalha e transformar a própria condição humana em experiência compartilhada, apontando-nos como tolos por transformarmos em inimigos aqueles que compartilham da mesma fragilidade diante do medo, da dor e da morte.

Se a morte é inevitável, como Thomas Hobbes reconhece ao colocar o medo dela como motor da paz, a questão não é escapar dela, mas decidir que tipo de vínculo somos capazes de construir à sua sombra. Podemos continuar precisando do inimigo para nos reconhecer ou podemos enfrentar o que isso revela sobre nós. Se a fragilidade diante da morte é comum a todos nós, por que ainda precisamos nos transformar uns aos outros em ameaça para reconhecer que pertencemos ao mesmo mundo?

Ouro Branco/MG, 10 de maio de 2026.
Wiler A. do Carmo Jr.

Em breve, uma nova coluna da série “Humanos”.

Leia minhas outras colunas.

Esta coluna também foi publicada no jornal O Alto Paraopeba. Leia aqui.

Fontes

HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. 1651. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_thomas_hobbes_leviatan.pdf. Acesso em: 08 maio 2026.

TAJFEL, H.; TURNER, J. The Social Identity Theory of Intergroup Behavior. In: Psychology of Intergroup Relations, 1986. Disponível em: https://ia800601.us.archive.org/21/items/15341_Readings/15341_Readings/Intergroup_Conflict/Tajfel_%26_Turner_Psych_of_Intergroup_Relations_CH1_Social_Identity_Theory_text.pdf. Acesso em: 29 mar. 2026.

SCHMITT, Carl. O conceito do político (1932) & Teoria de Partisan. Belo Horizonte: Del Rey, 2009. Disponível em: https://www.academia.edu/44238847/Conceito_do_pol%C3%ADtico_Carl_Schmitt. Acesso em: 29 mar. 2026.

DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia (1897). São Paulo: Martins Fontes, 2000. Disponível em: https://pedropeixotoferreira.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/durkheim_2000_o-suicidio_bookmfontes.pdf. Acesso em: 29 mar. 2026.

ECO, Umberto. Construir o inimigo. In: Construir o inimigo e outros escritos ocasionais. Rio de Janeiro: Record, 2021. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/8501093114?&linkCode=sl1&tag=umpingodeci0e-20  

SAPKOWSKI, Andrzej. Batismo de fogo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015. Disponível em: https://texas.dirzon.com/Doc/Details/telegram:Batismo%20de%20Fogo%20-%20Andrzej%20Sapkowski.pdf. Acesso em 02 maio 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *