Tubarão-da-groenlândia revela como um coração pode continuar funcionando por séculos, mesmo envelhecendo
Um novo estudo, publicado na revista Aging Cell, sobre o tubarão-da-groenlândia (Somniosus microcephalus) desafia uma ideia comum na biologia do envelhecimento: a de que viver muito tempo exige evitar os danos do tempo. Na verdade, esse animal, que pode ultrapassar 400 anos de vida, parece seguir um caminho diferente: ele envelhece, mas continua funcionando.
Pesquisadores investigaram pela primeira vez, em detalhe, o tecido cardíaco dessa espécie, tentando responder se seu coração seria “imune” ao envelhecimento ou se teria alguma outra estratégia. A resposta foi surpreendente: o coração apresenta vários sinais clássicos de envelhecimento, como fibrose (endurecimento do tecido), acúmulo de pigmentos celulares (como a lipofuscina, um marcador típico do envelhecimento), além de danos celulares associados ao estresse oxidativo e nitrosativo (como o acúmulo de 3-nitrotirosina) e sinais de disfunção mitocondrial.

Em humanos, essas alterações normalmente estão ligadas a doenças cardíacas graves e perda de função. No tubarão-da-Groenlândia, porém, isso não acontece. Mesmo com essas alterações, os animais continuam vivos e ativos, algo que, segundo os pesquisadores, “não seria compatível com a vida” em nossa espécie.
O estudo indica que a longevidade extrema desse tubarão não vem da ausência de envelhecimento, mas da capacidade de suportar e compensar seus efeitos ao longo do tempo. Ou seja, em vez de evitar o desgaste, ele mantém o funcionamento do organismo apesar dele, um conceito chamado de “resiliência biológica”.
Essa resiliência pode estar ligada a mecanismos eficientes de reparo do DNA, proteção contra câncer e estabilidade celular, já identificados em análises genéticas anteriores da espécie.
Além disso, o tubarão-da-groenlândia tem características que favorecem essa longevidade, como metabolismo extremamente lento, crescimento gradual e maturidade sexual tardia (por volta de 150 anos).
Os resultados sugerem que entender como esse animal mantém suas funções vitais mesmo com danos acumulados pode abrir novos caminhos para estudar o envelhecimento humano, não necessariamente para evitá-lo, mas para conviver melhor com ele.
Fontes
WAGNER, K. How can a heart beat for centuries? A lesson from the Greenland shark. ScienceX, 28 abr. 2026. Disponível em: https://sciencex.com/news/2026-04-heart-centuries-lesson-greenland-shark.html. Acesso em: 28 abr. 2026.
CHIAVACCI, E. et al. Resilience to Cardiac Aging in Greenland Shark Somniosus microcephalus. Aging Cell, 2026. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/acel.70505. Acesso em: 28 abr. 2026.
Imagem da capa: O tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus), o vertebrado mais longevo (cerca de ~400 anos), apresenta um envelhecimento cardíaco significativo. Ainda assim, isso não limita sua longevidade, sugerindo uma resiliência excepcional, mantendo a função apesar dos danos relacionados à idade. Crédito: FLI / Kerstin Wagner; imagem gerada por IA com Google Gemini (via Phys.org) e adaptada com ChatGPT.

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