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Tubarão-da-groenlândia revela como um coração pode continuar funcionando por séculos, mesmo envelhecendo

Um novo estudo, publicado na revista Aging Cell, sobre o tubarão-da-groenlândia (Somniosus microcephalus) desafia uma ideia comum na biologia do envelhecimento: a de que viver muito tempo exige evitar os danos do tempo. Na verdade, esse animal, que pode ultrapassar 400 anos de vida, parece seguir um caminho diferente: ele envelhece, mas continua funcionando.

Pesquisadores investigaram pela primeira vez, em detalhe, o tecido cardíaco dessa espécie, tentando responder se seu coração seria “imune” ao envelhecimento ou se teria alguma outra estratégia. A resposta foi surpreendente: o coração apresenta vários sinais clássicos de envelhecimento, como fibrose (endurecimento do tecido), acúmulo de pigmentos celulares (como a lipofuscina, um marcador típico do envelhecimento), além de danos celulares associados ao estresse oxidativo e nitrosativo (como o acúmulo de 3-nitrotirosina) e sinais de disfunção mitocondrial.

Avaliação histológica e fibrose cardíaca em várias espécies de peixes. (A, B) S. microcephalus, fêmea de 341 cm de comprimento total (TL), camada compacta. (C) S. microcephalus, fêmea de 341 cm TL, camada esponjosa. (D, E) S. microcephalus, macho de 335 cm TL. (F) S. microcephalus, macho de 335 cm TL, camada esponjosa. (G, H) E. spinax, fêmea de 300 mm TL, camada compacta. (I) E. spinax, fêmea de 300 mm TL, camada esponjosa. (J, K) E. spinax, macho de 260 mm TL, camada compacta. (L) E. spinax, macho de 260 mm TL, camada esponjosa. (M–O) miocárdio ventricular de N. furzeri, fêmea com 39 semanas. (P, Q) miocárdio ventricular de N. furzeri, macho com 39 semanas. Barra de escala azul: 100 μm; barra de escala preta: 50 μm. Seta amarela: cicatriz de colágeno isquêmica. (R) Quantificação da fibrose cardíaca em tubarões. p < 0,05.

Em humanos, essas alterações normalmente estão ligadas a doenças cardíacas graves e perda de função. No tubarão-da-Groenlândia, porém, isso não acontece. Mesmo com essas alterações, os animais continuam vivos e ativos, algo que, segundo os pesquisadores, “não seria compatível com a vida” em nossa espécie.

O estudo indica que a longevidade extrema desse tubarão não vem da ausência de envelhecimento, mas da capacidade de suportar e compensar seus efeitos ao longo do tempo. Ou seja, em vez de evitar o desgaste, ele mantém o funcionamento do organismo apesar dele, um conceito chamado de “resiliência biológica”.

Essa resiliência pode estar ligada a mecanismos eficientes de reparo do DNA, proteção contra câncer e estabilidade celular, já identificados em análises genéticas anteriores da espécie.

Além disso, o tubarão-da-groenlândia tem características que favorecem essa longevidade, como metabolismo extremamente lento, crescimento gradual e maturidade sexual tardia (por volta de 150 anos).

Os resultados sugerem que entender como esse animal mantém suas funções vitais mesmo com danos acumulados pode abrir novos caminhos para estudar o envelhecimento humano, não necessariamente para evitá-lo, mas para conviver melhor com ele.


Fontes

WAGNER, K. How can a heart beat for centuries? A lesson from the Greenland shark. ScienceX, 28 abr. 2026. Disponível em: https://sciencex.com/news/2026-04-heart-centuries-lesson-greenland-shark.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

CHIAVACCI, E. et al. Resilience to Cardiac Aging in Greenland Shark Somniosus microcephalus. Aging Cell, 2026. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/acel.70505. Acesso em: 28 abr. 2026.

Imagem da capa: O tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus), o vertebrado mais longevo (cerca de ~400 anos), apresenta um envelhecimento cardíaco significativo. Ainda assim, isso não limita sua longevidade, sugerindo uma resiliência excepcional, mantendo a função apesar dos danos relacionados à idade. Crédito: FLI / Kerstin Wagner; imagem gerada por IA com Google Gemini (via Phys.org) e adaptada com ChatGPT.

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