Crianças moldavam argila há 15 mil anos, antes da cerâmica e da agricultura, revela estudo
Muito antes do surgimento da cerâmica e da agricultura, humanos já moldavam argila com intencionalidade, e, surpreendentemente, crianças participavam ativamente desse processo. Um novo estudo arqueológico identificou ornamentos feitos de argila com cerca de 15 mil anos, revelando uma tradição simbólica muito mais antiga do que se imaginava.
A descoberta foi feita em sítios associados à cultura natufiana, no Levante, onde grupos de caçadores-coletores já viviam de forma relativamente sedentária. Ao todo, foram analisados 142 objetos, entre contas e pingentes, moldados manualmente em formas variadas como discos, cilindros e elipses. Muitos desses artefatos eram recobertos com ocre vermelho, indicando um uso intencional de técnicas de coloração, algo que possivelmente é o registro mais antigo conhecido desse tipo de prática.
Um dos aspectos mais marcantes da pesquisa está na identificação de impressões digitais preservadas na superfície das peças. Ao todo, cerca de 50 impressões permitiram aos pesquisadores determinar que os objetos foram produzidos por indivíduos de diferentes idades, incluindo crianças, adolescentes e adultos. Trata-se da primeira vez que se consegue identificar diretamente os autores de ornamentos paleolíticos com esse nível de detalhe.
Os formatos dos objetos também trazem pistas importantes sobre o modo de vida dessas populações. Muitos dos ornamentos reproduzem formas de plantas como cevada selvagem, trigo primitivo, lentilhas e ervilhas, elementos centrais na dieta desses grupos e que, milênios depois, seriam domesticados na agricultura. Isso sugere que o ambiente natural já desempenhava não apenas um papel econômico, mas também simbólico e cultural.
Evidências adicionais indicam que essas contas eram frequentemente moldadas diretamente sobre fibras vegetais ou hastes, o que mostra que já existiam técnicas relativamente sofisticadas de produção e uso desses objetos. Mais do que experimentos isolados, os achados apontam para uma tradição contínua de produção de ornamentos ao longo de milhares de anos.

Os resultados desafiam a visão tradicional de que o uso simbólico da argila teria surgido apenas com o advento da agricultura e das sociedades neolíticas. Em vez disso, o estudo sugere que práticas simbólicas complexas já estavam em curso durante as primeiras fases de sedentarização humana. A produção desses objetos provavelmente desempenhava um papel social importante, funcionando como meio de expressão de identidade, pertencimento e transmissão de conhecimento entre gerações.
A presença de crianças nesse processo reforça a ideia de que essas atividades estavam integradas ao cotidiano e à aprendizagem social, funcionando como um espaço de imitação, experimentação e construção cultural desde a infância.
Fontes
Universidade Hebraica de Jerusalém. Children shaped clay 15,000 years ago, long before pottery or farming, archaeologists find. Phys.org, 18 mar. 2026. Disponível em: https://phys.org/news/2026-03-children-clay-years-pottery-farming.html. Acesso em: 19 mar. 2026.
DAVIN, Laurent et al. Modelling identities among the first-sedentary communities: emergence of clay personal ornaments in Epipaleolithic Southwest Asia. Science Advances, 2026. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.aea2158. Acesso em: 19 mar. 2026.
Imagem da capa: Uma conta de argila em forma de borboleta do período Natufiano Final em Eynan-Mallaha (Alto Vale do Jordão), colorida de vermelho com ocre e marcada com as impressões digitais da criança (cerca de 10 anos) que a moldou há 12.000 anos. Crédito: Laurent Davin
