Microrganismos de Ötzi revelam como o microbioma humano mudou ao longo de 5.300 anos
O microbioma humano moderno é muito diferente daquele que acompanhava nossos ancestrais há milhares de anos. Um novo estudo publicado na revista científica Microbiome analisou em detalhes os microrganismos associados a Ötzi, o Homem do Gelo, a mais antiga múmia humana natural da Europa, e revelou como a comunidade de bactérias, fungos e leveduras presente em seu corpo preserva pistas valiosas sobre a evolução da saúde humana e das interações entre seres humanos e microrganismos.
Ötzi viveu há cerca de 5.300 anos e teve seu corpo preservado naturalmente em uma geleira nos Alpes. Pesquisadores da Eurac Research realizaram a análise mais abrangente já feita de seu microbioma, examinando amostras coletadas em diferentes tecidos ao longo de mais de três décadas de pesquisas. O trabalho identificou três grupos principais de microrganismos: bactérias intestinais que faziam parte de seu organismo quando estava vivo, organismos adaptados ao frio que colonizaram o corpo durante os milênios em que permaneceu congelado e microrganismos modernos introduzidos após sua descoberta e conservação em museu.
Para chegar a essas conclusões, os cientistas utilizaram técnicas modernas de sequenciamento genético e compararam amostras obtidas em diferentes momentos do estudo da múmia. A estratégia permitiu distinguir quais microrganismos pertenciam ao microbioma original de Ötzi, quais chegaram posteriormente por influência do ambiente glacial e quais foram introduzidos pelas práticas de conservação contemporâneas.
Um dos resultados mais surpreendentes foi a descoberta de leveduras adaptadas ao frio que permanecem viáveis e metabolicamente ativas. Segundo os pesquisadores, algumas delas ainda crescem nas condições de conservação atuais da múmia, demonstrando que Ötzi não é apenas um artefato arqueológico preservado, mas um ecossistema biológico dinâmico.
A análise também revelou a presença de bactérias intestinais associadas a dietas ricas em fibras e alimentos pouco processados. Muitas dessas linhagens são raras ou desapareceram em populações industrializadas modernas. Os pesquisadores argumentam que essas informações ajudam a compreender como mudanças na alimentação, no uso de antibióticos e no estilo de vida transformaram profundamente o microbioma humano ao longo dos últimos milênios.
Além das implicações para a saúde humana, o estudo traz desafios para a conservação da própria múmia. Alguns dos microrganismos identificados possuem genes capazes de degradar proteínas, gorduras e colágeno, componentes fundamentais dos tecidos preservados. Os pesquisadores alertam que as estratégias atuais de conservação podem precisar ser revisadas para garantir a preservação de longo prazo desse importante patrimônio arqueológico.
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Fontes
EURAC RESEARCH. Ötzi the Iceman and his microbiome—a 5,300-year-old relationship. Phys.org, 2 jun. 2026. Disponível em: https://phys.org/news/2026-06-tzi-iceman-microbiome-year-relationship.html. Acesso em: 11 jun. 2026.
SARHAN, Mohamad et al. The Iceman’s microbiome: unveiling millennia of microbial diversity and continuity. Microbiome, v. 14, 2026. DOI: 10.1186/s40168-026-02417-6. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s40168-026-02417-6. Acesso em: 11 jun. 2026.
