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Amostras do asteroide Ryugu preservam registro magnético dos primeiros milhões de anos do Sistema Solar

Um estudo publicado na revista Journal of Geophysical Research: Planets analisou partículas microscópicas trazidas à Terra pela missão japonesa Hayabusa2 a partir do asteroide 162173 Ryugu e revelou que esses grãos preservam um registro magnético que remonta aos primeiros milhões de anos do Sistema Solar. A pesquisa identificou magnetização remanescente natural estável em minerais ultrafinos, indicando que essas partículas registraram a presença de um campo magnético fraco ainda durante a fase inicial do disco protoplanetário.

As análises utilizaram técnicas de magnetometria de altíssima sensibilidade, capazes de detectar sinais extremamente sutis preservados nos minerais. Os resultados sugerem que parte da magnetização foi adquirida durante processos de alteração química mediados por água no corpo progenitor de Ryugu. Isso indica que o asteroide, ou o objeto maior do qual ele se fragmentou, passou por interação entre água líquida e minerais magnéticos sob a influência de um campo magnético externo, possivelmente associado ao disco de gás e poeira que envolvia o jovem Sol.

A importância do achado está no fato de que o campo magnético do disco protoplanetário desempenhou papel central na dinâmica do Sistema Solar nascente. Ele influenciou o transporte de partículas sólidas, a acreção de material e a formação dos primeiros corpos planetários. Entretanto, estimar diretamente a intensidade desse campo sempre foi um desafio, já que meteoritos encontrados na Terra podem sofrer alterações térmicas e magnéticas durante a entrada na atmosfera ou após longos períodos de exposição ao ambiente terrestre. As amostras de Ryugu, coletadas diretamente no espaço e mantidas em condições controladas, oferecem um registro mais fiel das condições originais.

Os dados indicam que o campo magnético registrado era relativamente fraco, compatível com modelos teóricos que descrevem um disco protoplanetário já em processo de dissipação entre aproximadamente 3 e 7 milhões de anos após a formação do Sistema Solar. Esse intervalo é considerado crucial para a consolidação dos planetas rochosos, incluindo a Terra. Assim, os resultados ajudam a refinar parâmetros físicos desses modelos, como densidade de gás, grau de ionização e intensidade de turbulência magnética.

Além disso, a associação da magnetização a minerais formados ou alterados por interação com água reforça a hipótese de que corpos primitivos ricos em carbono passaram por processos hidrotermais internos de baixa intensidade. A presença de água nesses objetos tem implicações diretas para a compreensão da distribuição de compostos voláteis no início do Sistema Solar e para teorias que investigam a origem da água terrestre.

Ao funcionar como uma cápsula do tempo geofísica, Ryugu preserva um “registro fóssil” do ambiente magnético que moldou a arquitetura planetária inicial. O estudo amplia o entendimento sobre as condições físicas que prevaleceram na infância do Sistema Solar e contribui para reconstruir os processos que levaram à formação dos planetas.

Fontes

HARLEY, Sadie. Asteroid Ryugu samples offer new insights into early solar system magnetism. Phys.org, 3 mar. 2026. Disponível em: https://phys.org/news/2026-03-asteroid-ryugu-samples-insights-early.html. Acesso em: 3 mar. 2026.

SATO, M. et al. Characteristics of Natural Remanence Records in Fine-Grained Particles Returned From Asteroid Ryugu. Journal of Geophysical Research: Planets, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1029/2025JE009265. Acesso em: 3 mar. 2026.

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