ColunaFilosofia

Humanos, carregadores de rochas

Em um instante silencioso de reflexão, o mundo se revela sem ornamentos. Nada se quebra, nada explode, nada termina, nada começa; ainda assim, algo se rompe. A pergunta surge quase por acidente, em uma ânsia inexplicável por entender: por quê? Por que repetir, insistir, continuar fazendo o que fazemos? O mundo, fiel à sua natureza indiferente, não responde. É nesse hiato entre a pergunta humana e o silêncio do real que o absurdo se instala.

Na história evolutiva do universo, a formação primitiva da Terra não é resultado de um plano, mas de uma longa cadeia de eventos de destruição e criação que se desenrola há pelo menos 13,8 bilhões de anos, como mostra Carl Sagan (1934-1996) no episódio “As Vidas das Estrelas”, da série Cosmos (1980), ao explicar como estrelas nascem, transformam matéria em novos elementos e, ao morrer, espalham esses fragmentos pelo espaço, permitindo o surgimento de novas estrelas, planetas e, eventualmente, da própria Terra. Nenhum propósito, apenas processo. Nosso mundo é um episódio improvável dentro uma sequência impessoal de transformações cósmicas. Nada indica intenção, nada sugere direção moral.

Esse pano de fundo amplia o choque descrito por Albert Camus (1913-1960) em O mito de Sísifo (2019). O absurdo não é uma teoria abstrata, mas uma experiência concreta do confronto entre nossa fome de sentido e um universo que não responde. Não se trata de caos, mas de indiferença. O universo não é cruel; ele simplesmente é.

Quando a consciência desperta para isso, ela encontra muros. Esses muros não são barreiras físicas, mas limites estruturais da própria condição humana. A razão investiga, organiza, calcula, mas, ao buscar o sentido último das coisas, encontra o limite de sua própria capacidade. O mundo sensível oferece fatos, não justificativas; a morte impõe finitude, não explicação; o outro, nosso próximo, permanece sempre parcialmente inacessível; há fronteiras que o pensamento toca, mas não atravessa.

É diante desses muros que o absurdo ganha nitidez. A tendência imediata é o salto. Saltar para uma explicação transcendental, para uma promessa de redenção futura, para um sistema ideológico que garanta coerência total. Camus chama isso de “suicídio filosófico”: a decisão de matar a lucidez em troca de consolo. Não é a morte física que ele critica, mas a morte da tensão entre pergunta e silêncio; em outras palavras, a pressa em preencher o vazio com um sentido fabricado.

Recusar o salto é mais difícil. Fazer isso é permanecer na tensão, aceitar que não há resposta final e, ainda assim, continuar. É nesse ponto que a imagem de Sísifo deixa de ser mito da Antiguidade e se torna um retrato do nosso tempo. Empurramos a nossa rocha todos os dias, no trabalho que se repete, nas tarefas que retornam, nos esforços que não se concluem de forma definitiva. A rocha sobe a montanha e rola de volta para o sopé. Sempre. Não há progresso final; há continuidade.

Mas o absurdo não se limita à experiência individual; em certas circunstâncias, ele se organiza e passa a funcionar como sistema, incorporado às estruturas humanas. Muito antes de ser formulado filosoficamente por Camus e mesmo a ponto de influenciá-lo, Franz Kafka (1883-1924) percebeu isso com precisão e sensibilidade perturbadoras. Em O Processo (KAFKA, 2009), o protagonista é acusado sem saber por quê, julgado sem compreender como, condenado sem entender quando. A culpa não nasce de um ato, mas da própria existência. A rocha assume a forma de uma acusação permanente.

Em O Castelo (KAFKA, 2008), a autoridade governa tudo, mas jamais se deixa ser alcançada. Cada tentativa do protagonista em se aproximar dela produz apenas mais distância, mais burocracia, mais intermediações. O muro absurdo, aqui, não impede frontalmente; ele administra a impossibilidade. Já em A Metamorfose (KAFKA, 1997), o absurdo invade o corpo. O protagonista amanhece transformado em um inseto que, pela descrição de Kafka, parece ser um inseto gigantesco, que costuma ser interpretado como uma barata. Não há explicação para a transformação, não há lição moral, não há redenção; há apenas adaptação e descarte

Kafka mostra o absurdo quando ele deixa de escandalizar e passa a ser aceito como normal. Camus, por sua vez, insiste na recusa dessa anestesia. Para ele, a consciência do absurdo não conduz à paralisia, mas à revolta lúcida; não uma revolta como explosão, violência ou ruptura, mas como permanência. Em outras palavras, viver sem apelo a instâncias transcendentais consoladoras, agir sem promessa de recompensa futura, continuar sem mentir para nós mesmos sobre a condição humana.

Carregar a rocha, desse ponto de vista, não é submissão, mas dignidade. É recusar tanto o desespero quanto a ilusão. É afirmar a vida sem transformá-la em meio para um fim transcendente. Se não há sentido imposto, também não há autoridade absoluta que o determine. A ausência de propósito cósmico pode ser angustiante, mas também devolve a responsabilidade integral da existência a nós próprios.

Somos humanos, e isso significa estar conscientes demais para aceitar respostas fáceis e frágeis demais para suportar o vazio sem inquietação. Habitamos essa tensão.

Um sobrinho meu, de dez anos, sem mais nem menos, me perguntou por que o mundo foi criado. Eu, mexendo a carne na churrasqueira, respondi instintivamente, sem muita reflexão: “Uai. O mundo foi criado por motivo nenhum; só foi.” Ele ficou em silêncio. Eu também.

Talvez ali estivesse toda a cena humana condensada. A infância que ainda exige um porquê para as coisas e o adulto que, embora siga questionando em busca de uma resposta, suspeita que o mundo não explica a si mesmo. Entre o desejo de sentido e a ausência de resposta, continuamos empurrando nossas rochas.

A cultura popular às vezes capta essa intuição com uma clareza que salta aos olhos, como se pode notar na canção Il mondo (1965), interpretada por um de seus compositores, Jimmy Fontana (1934-2013). Nela, ouvimos: O mondo! / Soltanto adesso io ti guardo. / Nel tuo silenzio io mi perdo. / E sono niente accanto a te. Il mondo non si è fermato / mai un momento (“Ó mundo! Só agora eu te olho. No teu silêncio eu me perco. E não sou nada diante de ti. O mundo nunca parou / nem por um momento.”, em tradução livre). Enquanto amamos, sofremos, perguntamos e esperamos, o mundo simplesmente continua. As fantasias que criamos caem por terra e o indivíduo encará a realidade nua, como ela é. 

Se o universo é processo sem intenção, se a Terra é fruto de colisões e agregações cegas, se a história humana é atravessada por sistemas que funcionam sem explicar, resta-nos a lucidez; não a esperança de que a rocha deixará de rolar, mas a decisão de empurrá-la tendo a consciência de que o fato de fazermos isso faz parte do que somos.

Camus imaginou Sísifo descendo a montanha para buscar a rocha que inevitavelmente voltará a rolar para o mesmo lugar quando ele, mais uma vez, chegar com ela ao cume. Camus não o imaginou salvo ou consolado; ele o imaginou consciente de sua tarefa. Nesse instante, Sísifo é superior ao seu próprio destino, pois ele sabe o que o espera e, ainda assim, continua. E talvez seja essa a forma mais radical da dignidade humana. “A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem”, conclui Camus. “É preciso imaginar Sísifo feliz”.

Se o mundo apenas é, sem razão alguma para isso, o que faremos nós com a lucidez que nos resta?

Ouro Branco/MG, 08 de março de 2026.
Wiler A. do Carmo Jr.

Em breve, uma nova coluna da série “Humanos”.

Leia minhas outras colunas.

Esta coluna também foi publicada no jornal O Alto Paraopeba. Leia aqui.

Fontes

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo (1942). São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Disponível em:
https://archive.org/details/albert-camus-o-mito-de-sisifo/page/n1/mode/2up.
Acesso em: 7 mar. 2026.

KAFKA, Franz. A metamorfose (1915). São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Disponível em:
https://colegiocngparanagua.com.br/wp-content/uploads/2021/02/A-METAMORFOSE.pdf.
Acesso em: 7 mar. 2026.

KAFKA, Franz. O castelo (1926). São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Disponível em:
https://kbook.com.br/wp-content/uploads/2020/02/O-Castelo-Franz-Kafka.pdf.
Acesso em: 7 mar. 2026.

KAFKA, Franz. O processo (1925). Alfragide, Portugal: LeYa, 2009. Disponível em:
https://www.agr-tc.pt/bibliotecadigital/aetc/download/708/O%20Processo%20-%20Franz%20Kafka.pdf. Acesso em: 7 mar. 2026.

SAGAN, Carl. Episódio 9 – “As vidas das estrelas”. In: Cosmos, 1980. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4izcJIXmDck. Acesso em: 7 mar. 2026.

FONTANA, Jimmy. Il mondo. 1965. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=H-VqGfKjvns.
Acesso em: 7 mar. 2026.

WIKIPÉDIA. Sísifo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADsifo. Acesso em: 7 mar. 2026.

WIKIPÉDIA. Franz Kafka. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka. Acesso em: 7 mar. 2026.

WIKIPÉDIA. Absurdismo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Absurdismo. Acesso em: 7 mar. 2026.

WIKIPÉDIA. Jimmy Fontana. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Jimmy_Fontana. Acesso em: 7 mar. 2026.CARMO JR., W. A. Vivemos os últimos segundos do calendário cósmico. Um Pingo de Ciência, 17 nov. 2024. Disponível em: https://umpingodeciencia.com.br/vivemos-os-ultimos-segundos-do-calendario-cosmico/. Acesso em: 7 mar. 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *