De 2017 a 2025: quando eu esbarrei (de novo) no mesmo alerta sobre o desmonte da ciência no Brasil
No meio da migração das minhas colunas do antigo blog umpingodeciencia.blogspot.com.br para o site umpingodeciencia.com.br, eu tropecei numa cápsula do tempo: uma coluna que escrevi em 9 de outubro de 2017, com um título que hoje parece profecia repetida: “A carta de vencedores do Prêmio Nobel a Temer e o descaso para com a Ciência no Brasil”.
Na época, eu relatava como tinha encontrado a notícia de que vencedores do Prêmio Nobel de 2017 haviam enviado uma carta ao então presidente Michel Temer, manifestando preocupação com os cortes no orçamento da ciência brasileira. Os números eram duros: um corte de 44% em 2017 e a previsão de mais 15,5% em 2018 (CARMO JR., 2017). A mensagem dos cientistas era direta: cortes dessa magnitude não representam simples contingenciamento, mas um processo de desmantelamento com efeitos duradouros, como a fuga de cérebros e a perda de capacidade científica por décadas.
O que mais chama atenção ao reler aquele texto é perceber que ele não era apenas um desabafo indignado. Tratava-se também de um inventário do estrago, apoiado em dados e consequências bem concretas. Ali já estavam o alerta sobre o risco de o CNPq ficar sem recursos para cerca de 100 mil bolsas, a queda abrupta do auxílio à pesquisa e o esvaziamento das bolsas no exterior (CARMO JR., 2017). O descaso não aparecia como abstração política, mas como ameaça direta à formação científica e à continuidade de projetos em andamento.
Mas talvez o ponto mais estrutural daquela coluna – e o que mais dialoga com o presente – fosse a constatação de que o Brasil depende fortemente do Estado como principal financiador da ciência, ao contrário de países onde o setor privado tem participação mais robusta em pesquisa e desenvolvimento. Isso torna o sistema científico nacional especialmente vulnerável às oscilações orçamentárias e às disputas de curto prazo no Congresso, como já apontavam análises internacionais à época. O resultado é uma ciência tratada de forma intermitente, sem previsibilidade, como se fosse um gasto ajustável, e não uma política estratégica de longo prazo.

Reler aquela coluna hoje chama atenção para um ponto que já estava ali, de forma muito clara, em 2017: a relação direta entre investimento em ciência e capacidade de recuperação econômica. Já naquele texto apareciam dados mostrando que países que investem mais em pesquisa e desenvolvimento crescem mais, inovam mais e atravessam crises com menos danos (CARMO JR., 2017). Ciência não é luxo de tempos de bonança, mas infraestrutura estratégica. É a pesquisa que acelera a inovação, reduz dependências tecnológicas e cria as bases para um crescimento sustentável. Ignorar isso, mesmo diante das decisões políticas tomadas em dezembro de 2025, não é falta de informação, é insistência no erro. Cortar ciência como solução orçamentária imediata é optar por uma recuperação mais lenta, mais frágil e mais desigual.
Esse diagnóstico ganha contornos ainda mais claros quando se observa a evolução dos dispêndios em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Indicadores divulgados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e analisados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a participação desses gastos no Produto Interno Bruto oscilou ao longo dos últimos anos, com queda significativa após 2015 e recuperação apenas parcial nos anos seguintes, sem retomar de forma sustentada os patamares mais altos do período (KOELLER, 2025). Em outras palavras, mesmo fora dos momentos de crise aguda, o país não conseguiu consolidar uma trajetória estável de investimento em ciência, o que ajuda a explicar por que cada novo corte produz efeitos tão profundos e duradouros.

Fonte: Evolução dos dispêndios em P&D em relação ao PIB (%) – países de alta renda e Brasil, 2000-2023. Dados do MCTI. Elaboração de KOELLER (2025). Foram excluídos os países para os quais não havia informação em 2023 (Cingapura, Reino Unido e Rússia).
Entre 2017 e 2025, o alerta não ficou restrito àquele primeiro episódio. Pelo contrário, ele foi sendo confirmado por uma sequência quase contínua de cortes, contingenciamentos e bloqueios. Em 2019, reportagens internacionais mostraram que o congelamento orçamentário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação colocou em risco o funcionamento do sistema científico nacional e a manutenção de bolsas do CNPq (ANGELO, 2019; ABRASCO, 2019). Já no fim de 2020, reportagens passaram a apontar explicitamente que os efeitos desses cortes levariam a um cenário dramático para a pesquisa em 2021, tanto em universidades quanto em agências de fomento (PIRES, 2020).
Em 2021, o CNPq anunciou que conseguiria pagar apenas 12,8% das bolsas aprovadas em determinados editais, apesar de mérito científico reconhecido (ANDES-SN, 2021). No mesmo ano, textos publicados em veículos científicos internacionais relataram que o orçamento federal da ciência sofreu proposta de corte superior a 90%, levando o financiamento do CNPq a um dos menores níveis históricos e tornando inviável a manutenção de projetos e bolsas (KOWALTOWSKI, 2021; TRAGGER, 2021). Pouco depois, levantamentos jornalísticos mostraram que, ao longo de cerca de sete anos, as perdas acumuladas no financiamento à pesquisa científica no Brasil ultrapassaram R$ 80 bilhões, corroendo a capacidade institucional do sistema científico nacional (EXTRA CLASSE, 2022).
E é impossível não fazer a ponte com o presente. Em dezembro de 2025, o Congresso Nacional voltou a mexer no orçamento, reacendendo o alerta. Entidades como a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) denunciaram que a Lei Orçamentária Anual de 2026 reduziu novamente os recursos destinados a CNPq e Capes (ABC, 2025). Ao mesmo tempo, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) alertou para um corte de quase R$ 500 milhões no orçamento das universidades federais, com impacto direto em ensino, pesquisa, extensão e políticas de permanência estudantil (ANDIFES, 2025; FERREIRA, 2025). A Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) apontou ainda a supressão de centenas de milhões de reais destinados a bolsas de pós-graduação, com recursos realocados para outras finalidades (FeSBE, 2026).
O efeito simbólico desse reencontro entre 2017 e 2025 é desconfortável. Não porque o texto antigo estivesse exagerado, mas porque ele continua atual. Mudam governos, discursos e justificativas, mas a ciência brasileira segue sendo tratada, com frequência, como gasto supérfluo, quando deveria ser entendida como infraestrutura de futuro e condição mínima de soberania.
Se em 2017 eu escrevia a partir da incerteza de quem estava se formando, sem emprego na área de formação e tentando decidir os próximos passos, o que aparecia no horizonte era um cenário de portas se fechando. A pós-graduação surgia como possibilidade, mas já sob a sombra da falta de bolsas, do esvaziamento das agências de fomento e da precarização da pesquisa. Com as decisões políticas de dezembro de 2025, o sentimento é de déjà-vu histórico: o Brasil parece repetir o mesmo erro em ciclos, enfraquecendo sua base científica e depois se perguntando por que demora tanto a se recuperar econômica e socialmente. A resposta, há pelo menos oito anos, já estava escrita.
Ouro Branco/MG, 25 de janeiro de 2026.
Wiler A. do Carmo Jr.
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Esta coluna também foi publicada no jornal O Alto Paraopeba. Leia aqui.
Fontes
- ABRASCO. Revista Nature pauta cortes no CNPq. ABRASCO, 20 ago 2019. Disponível em:
https://abrasco.org.br/revista-nature-pauta-cortes-no-cnpq/. Acesso em: 13 jan. 2026. - ANDES-SN. CNPq vai pagar apenas 12,8% das bolsas de pesquisa devido aos cortes orçamentários. ANDES-SN, 2021. Disponível em: https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/cNPq-vai-pagar-apenas-12-8-das-bolsas-de-pesquisas-devido-aos-cortes-orcamentarios1. Acesso em: 24 jan. 2026.
- ANGELO, C. Brazil freezes science spending. Nature, 11 abr. 2019. Disponível em:
https://www.nature.com/articles/d41586-019-01079-9.
Acesso em: 13 jan. 2026. - CARMO JR., W. A. A carta de vencedores do Prêmio Nobel a Temer e o descaso para com a Ciência no Brasil. Um Pingo de Ciência, 09 out. 2017. Disponível em: https://umpingodeciencia.blogspot.com/2017/10/a-carta-de-vencedores-do-premio-nobel-e-minhas-descobertas-sobre-o-descaso-para-com-a-ciencia-no-brasil.html. Acesso em: 24 jan. 2026.
- Academia Brasileira de Ciências. ABC e SBPC alertam para cortes na ciência na LOA 2026. Academia Brasileira de Ciências, 22 dez. 2025. Disponível em: https://www.abc.org.br/2025/12/22/abc-e-sbpc-alertam-para-cortes-na-ciencia-na-loa-2026/. Acesso em: 24 jan. 2026.
- Andifes. Andifes alerta para riscos causados pelo corte no orçamento das universidades federais e reforça a importância do ensino superior público. Andifes, 24 dez. 2025. Disponível em: https://www.andifes.org.br/2025/12/24/andifes-alerta-para-riscos-causados-pelo-corte-no-orcamento-das-universidades-federais-e-coloca-importancia-do-ensino-superior-publico-no-centro-do-debate/. Acesso em: 24 jan. 2026.
- Extra Classe. Cortes de verbas para pesquisas superam R$ 80 bilhões em sete anos. Extra Classe, 6 jun. 2022. Disponível em: https://www.extraclasse.org.br/educacao/2022/06/cortes-de-verbas-para-pesquisas-superam-r-80-bilhoes-em-sete-anos. Acesso em: 24 jan. 2026.
- FERREIRA, P. Universidades federais sofrem corte de R$ 488 milhões no orçamento de 2026. Terra, 23 dez. 2025. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/educacao/universidades-federais-sofrem-corte-de-r-488-milhoes-no-orcamento-2026,84b303e9e2cecbb5f714e968423e8e86s2qbrcyr.html. Acesso em: 24 jan. 2026.
- FeSBE. Cortes no financiamento de bolsas de pós-graduação e pesquisa em 2026. FeSBE, 2026. Disponível em: https://fesbe.org.br/cortes-no-financiamento-de-bolsas-de-pos-graduacao-e-pesquisa-em-2026/. Acesso em: 24 jan. 2026.
- KOELLER, P. Evolução dos dispêndios em pesquisa e desenvolvimento. Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade – Ipea, 06 ago. 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/499-evolucao-dos-dispendios-em-pesquisa-e-desenvolvimento. Acesso em: 24 jan. 2026.
- KOWALTOWSKI, A. J. Brazil’s scientists face 90% budget cut. Nature, v. 598, p. 566, 28 out. 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34697474/. Acesso em: 24 jan. 2026.
- PIRES, B. Ciência brasileira sofre com cortes de verbas e encara cenário dramático para pesquisas em 2021. El País Brasil, 31 dez. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-12-31/ciencia-brasileira-sofre-com-cortes-de-verbas-e-encara-cenario-dramatico-para-pesquisas-em-2021.html. Acesso em: 24 jan. 2026.
- TRAGGER, R. Brazil’s science budget is on the brink of being eviscerated. Chemistry World, 16 nov. 2021. Disponível em: https://www.chemistryworld.com/news/brazils-science-budget-is-on-the-brink-of-being-eviscerated/4014738.article. Acesso em: 24 jan. 2026.
