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Corais-de-fogo do Brasil podem estar entrando em “extinção silenciosa”, alertam cientistas

Um estudo recente indica que os corais-de-fogo brasileiros, organismos fundamentais para a estrutura dos recifes, podem estar sofrendo um processo de “extinção silenciosa”, impulsionado por ondas de calor marinhas cada vez mais intensas. A pesquisa, publicada na revista Coral Reefs, mostra que o fenômeno ocorre de forma pouco perceptível, mas com consequências potencialmente irreversíveis para a biodiversidade marinha.

Os dados foram obtidos a partir do monitoramento conduzido pelo Instituto Coral Vivo desde 2019, quando o Brasil enfrentou um primeiro grande evento de branqueamento de corais. Esse fenômeno ocorre quando o aumento da temperatura da água faz com que os corais expulsem microalgas simbióticas responsáveis por sua nutrição, levando ao enfraquecimento, perda de cor e, frequentemente, à morte.

Durante uma nova onda de calor no início de 2024, associada ao fenômeno El Niño, os impactos foram severos. A espécie Millepora braziliensis, endêmica do Brasil, apresentou 100% de branqueamento e perda total de cobertura viva nas colônias monitoradas em Tamandaré (PE). Já a espécie Millepora nitida sofreu cerca de 40% de branqueamento, embora sem perda significativa de cobertura.

A situação é especialmente preocupante porque algumas dessas espécies já são classificadas como criticamente ameaçadas de extinção. Além disso, há lacunas importantes de conhecimento: espécies raras e de difícil acesso, como Millepora laboreli, podem estar ainda mais vulneráveis, sem dados atualizados sobre seu estado de conservação.

Apesar de historicamente menos estudados que os chamados “corais verdadeiros”, os corais-de-fogo desempenham papel ecológico equivalente, oferecendo abrigo e estrutura para diversas espécies marinhas. Sua perda pode comprometer a complexidade dos recifes e afetar cadeias ecológicas inteiras.

O estudo também aponta que o evento global de branqueamento de 2023–2024 afetou cerca de 84% dos recifes do planeta, evidenciando a escala do problema. No Brasil, algumas regiões chegaram a registrar taxas de branqueamento superiores a 90%.

Segundo os pesquisadores, medidas de restauração, como o cultivo de corais em laboratório, ainda apresentam baixa eficácia, já que os organismos reintroduzidos frequentemente não resistem a novos eventos de aquecimento. Assim, a principal estratégia imediata continua sendo a redução das emissões de gases de efeito estufa, responsável pelo aquecimento global e pela intensificação das ondas de calor oceânicas.

Os autores destacam ainda que áreas marinhas protegidas tendem a reduzir os impactos do branqueamento, reforçando a importância de políticas de conservação mais robustas. Sem ações rápidas, alertam, algumas dessas espécies podem desaparecer nos próximos anos, sem sequer terem sido plenamente estudadas, caracterizando uma extinção que ocorre longe dos olhos, mas com efeitos profundos sobre os ecossistemas marinhos.

Fontes

JULIÃO, A. Brazil’s fire corals may be facing silent extinction, experts say. Phys.org, 25 mar. 2026. Disponível em: https://phys.org/news/2026-03-brazil-corals-silent-extinction-experts.html. Acesso em: 29 mar. 2026.

SILVA, T. R. S. et al. A fragile branch: the silent decline of neglected Brazilian milleporids amid the fourth global bleaching event. Coral Reefs, 2025. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00338-025-02793-9. Acesso em: 29 mar. 2026.

Imagem de capa: Uma colônia parcialmente branqueada de Millepora nitida no Recife de Fora, no sul da Bahia, após a onda de calor de 2023. Crédito: Ralf Cordeiro / UFRPE

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