Uma molécula minúscula de RNA pode ajudar a explicar a origem da vida
Uma equipe internacional de pesquisadores descreveu, em artigo publicado na revista Science, a descoberta de uma molécula de RNA extremamente pequena capaz de desempenhar uma das funções mais fundamentais da vida: a autorreplicação. O estudo apresenta um ribozima, uma molécula de RNA com atividade catalítica, com apenas 45 nucleotídeos que consegue sintetizar tanto sua própria cópia quanto sua cadeia complementar, um feito que aproxima a ciência de entender como a vida pode ter surgido a partir de matéria não viva.
A origem da vida depende, entre outros fatores, do surgimento de sistemas capazes de armazenar informação e se replicar com alguma fidelidade, permitindo a ação da seleção natural. A chamada hipótese do “mundo de RNA” propõe que, antes do DNA e das proteínas, o RNA desempenhava simultaneamente o papel de material genético e de catalisador químico. No entanto, havia um obstáculo importante: os ribozimas conhecidos capazes de copiar RNA eram grandes e estruturalmente complexos, o que tornava improvável sua formação espontânea nas condições da Terra primitiva.
O novo estudo enfrenta esse problema ao identificar um ribozima muito menor, denominado QT45. A molécula foi encontrada a partir da triagem de trilhões de sequências aleatórias de RNA e demonstrou ser capaz de catalisar a síntese de RNA a partir de moldes, utilizando blocos de três nucleotídeos. Em condições que simulam ambientes da Terra primitiva, como misturas parcialmente congeladas, o QT45 conseguiu produzir sua fita complementar e também gerar cópias de si mesmo, ainda que com baixa eficiência.
Apesar da eficiência limitada (com rendimentos em torno de 0,2% após vários dias), o resultado é considerado significativo porque demonstra que funções complexas, como a replicação de RNA, podem emergir em moléculas muito menores do que se pensava anteriormente. Isso reduz a dificuldade teórica para o surgimento espontâneo de sistemas autorreplicantes, um passo essencial na transição entre química e biologia .
Além disso, o estudo sugere que sequências de RNA com capacidade catalítica podem ser mais comuns no chamado “espaço de sequências” do que se imaginava, o que aumenta a plausibilidade de que estruturas semelhantes tenham surgido naturalmente na Terra primitiva. Em outras palavras, a origem da vida pode não ter sido um evento tão improvável quanto parecia, ao menos do ponto de vista molecular .
Embora o QT45 ainda esteja longe de um sistema biológico completo, e sua eficiência precise ser amplamente aprimorada, a descoberta representa um avanço importante na investigação sobre a origem da vida, ao mostrar que a autorreplicação pode emergir a partir de estruturas moleculares simples.
Fontes
ARNOLD, P. Could the discovery of a tiny RNA molecule explain the origins of life? Phys.org, 13 fev. 2026. Disponível em: https://phys.org/news/2026-02-discovery-tiny-rna-molecule-life.html. Acesso em: 29 mar. 2026.
GIANNI, E. et al. A small polymerase ribozyme that can synthesize itself and its complementary strand. Science, 12 fev. 2026. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.adt2760. Acesso em: 29 mar. 2026.
Imagem de capa: Descoberta e evolução de três pequenos motivos de ribozimas polimerases. Crédito: Science (2026).
