Humanos, enganados que não se recuperam do engano
Uma das tragédias silenciosas da condição humana não é o erro em si, mas a fidelidade que passamos a nutrir por ele. Errar é humano; persistir no erro, quando ele já se revelou como tal, é algo mais profundo, quase estrutural. O astrônomo e divulgador científico Carl Sagan (1934-1996), em O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro (2019), especificamente no capítulo “Obcecado pela realidade”, formulou essa ideia com uma clareza implacável: depois que uma pessoa entrega poder sobre si a um charlatão – seja ele um líder, uma ideia ou uma narrativa que promete certezas fáceis –, ela quase nunca o recupera; não por falta de evidências, mas porque admitir o engano cobra um preço emocional alto demais.
Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixamos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguimos recuperar nossa independência. Por isso, os antigos logros tendem a persistir, enquanto surgem outros novos.
SAGAN, C. “Obcecado pela realidade”. In: O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 279.
O engano, quando se prolonga, deixa de ser apenas uma crença equivocada; ele se transforma em identidade. O engano passa, então, a organizar afetos, justificar decisões passadas, sustentar pertencimentos sociais. Reconhecer que fomos enganados não é apenas mudar de ideia, mas admitir que investimos tempo, confiança, esperança e, muitas vezes, dignidade em algo falso. Para muitos, isso é insuportável.
É por isso que o desmentido raramente produz libertação. Ao contrário do que supõe um pressuposto clássico do Iluminismo segundo o qual a exposição da verdade levaria, naturalmente, ao abandono do erro, a realidade psicológica e social aponta na direção oposta. Quanto mais profundamente alguém foi enganado, mais feroz tende a ser sua defesa do engano. A evidência deixa de ser um convite à reflexão e passa a ser percebida como uma agressão.
Esse mecanismo não é novo. A história da humanidade está repleta de exemplos de povos, grupos e indivíduos que permaneceram leais a líderes, dogmas e narrativas mesmo depois de sua falência moral, política ou factual. O engano persistente cria uma lógica própria: qualquer dado que o contradiga é visto como conspiração; qualquer crítico, como inimigo; qualquer dúvida, como fraqueza.
O problema, portanto, não está apenas nos enganadores – charlatães, demagogos, profetas do absurdo ou mercadores do medo. Na verdade, ele está também na arquitetura emocional e social que permite que o engano se torne confortável. O charlatão só prospera porque oferece algo que muitos desejam desesperadamente: sentido simples para um mundo complexo, culpados claros para frustrações difusas, certezas rígidas em tempos de instabilidade.
Sagan compreendeu isso com clareza ao insistir que o combate à pseudociência e ao autoengano não é apenas uma disputa intelectual, mas uma disputa ética. Não basta apresentar fatos; é preciso compreender o apego humano às ilusões. O engano persistente funciona como anestésico existencial: alivia a angústia da dúvida, mesmo ao custo da verdade.
Há ainda um fator mais incômodo: o orgulho. Admitir que fomos enganados significa reconhecer que nosso julgamento falhou. Para muitos, especialmente em sociedades que associam valor pessoal à convicção e à força de opinião, isso equivale a uma derrota moral. Assim, o erro é protegido não por ignorância, mas por vaidade.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que narrativas falsas sobrevivem mesmo em ambientes saturados de informação. Vivemos cercados de dados, mas isso não nos tornou mais sábios. Pelo contrário, a abundância de informação permite que cada um selecione apenas aquilo que confirma suas crenças prévias. O engano deixa de ser imposto de fora e passa a ser cultivado de dentro.
O preço disso é alto. Sociedades que não conseguem abandonar seus enganos tornam-se presas fáceis de autoritarismos, fanatismos e violências simbólicas ou reais. Quando a verdade é percebida como ameaça, o pensamento crítico passa a ser tratado como traição. A mentira, então, não precisa mais se esconder: ela governa à luz do dia.
Talvez o ponto mais perturbador do diagnóstico de Sagan seja este: não existe garantia de recuperação. Não há método infalível, nem argumento definitivo, capaz de libertar alguém que já entregou sua autonomia intelectual a uma narrativa enganosa. A ciência pode oferecer ferramentas; a educação, caminhos; o diálogo, pontes. Nada disso, porém, funciona se o indivíduo não estiver disposto a pagar o custo emocional da lucidez.
Reconhecer o engano exige coragem. Não a coragem épica dos grandes gestos, mas a coragem íntima de desmontar as próprias certezas, de revisitar escolhas, de suportar o desconforto de dizer “eu estava errado”. Em um mundo que recompensa a obstinação e ridiculariza a dúvida, essa é uma virtude rara.
Talvez, então, a questão mais inquietante não seja por que tantos humanos são enganados, mas por que o reconhecimento do engano nos parece mais ameaçador do que viver sob ele. Se a lucidez exige o preço da dúvida, da revisão e da humildade, estamos realmente dispostos a pagá-lo ou preferimos continuar fiéis às ilusões que nos poupam de enfrentar a verdade?
Ouro Branco/MG, 08 de fevereiro de 2026.
Wiler A. do Carmo Jr.
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Esta coluna também foi publicada no jornal O Alto Paraopeba. Leia aqui.
