O caso do cão Orelha: humanos entre a civilidade e a barbárie
Esta coluna é um aprofundamento da discussão iniciada em nosso vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=O_jwE6PoPx4
O que aconteceu com o cão comunitário Orelha na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, em 4 de janeiro de 2026, não é apenas um crime contra um animal, mas um episódio que nos obriga a perguntar, para nós mesmos, que tipo de relação moral ainda conseguimos manter com aquilo que é frágil. Isso mesmo: “nós”. Porque pessoas fizeram aquilo, então a falha é humana.
O Orelha não era um cachorro invisível. Ele era conhecido, ele era querido, ele era cuidado por moradores do bairro. Ele fazia parte da vida daquele lugar. Ainda assim, ele foi agredido a pauladas e outras coisas mais, de forma tão violenta que os veterinários não tiveram outra alternativa senão sacrificá-lo para cessar uma dor irreversível. Quando um ser vivo precisa morrer para parar um sofrimento causado por nós, humanos, isso não pode ser tratado como algo banal. Isso é uma falha ética.
Costuma-se dizer que é falta de empatia, de compaixão. E é mesmo. Mas isso é só o começo da conversa. O que aparece ali é algo muito mais profundo: quando alguém consegue ferir um animal indefeso, idoso, vulnerável, não é apenas porque sente pouco; é porque já deixou de ver ali um ser que sofre. Para essa pessoa, a dor já deixou de ser um apelo à humanidade, um pedido de ajuda, e virou só barulho.
Há ainda um ponto que torna esse caso mais perturbador: quem fez isso foram adolescentes. Isso não diminui a gravidade do ocorrido; só aumenta. Porque revela um aprendizado torto: de alguma forma, eles aprenderam que a violência pode virar brincadeira, que o mais fraco pode virar alvo, que machucar pode virar espetáculo. Ninguém nasce cruel. A crueldade é algo aprendido – pelo exemplo, pelo silêncio e pela normalização.
As investigações também apontam que o mesmo grupo de adolescentes já havia tentado afogar outro cachorro comunitário pouco antes do ataque que levou à morte de Orelha. Isso reforça que não se trata de um ato isolado, mas de um padrão de comportamento que já vinha se manifestando.
Esses episódios tampouco são únicos no país. Em 18 de janeiro de 2026, um cachorro comunitário foi morto com cerca de dez tiros em um ponto de ônibus na cidade de São Paulo. Casos anteriores também chocaram a opinião pública, o da cadela Preta, arrastada até a morte em Pelotas, Rio Grande do Sul, em 2005; como o da cadela Manchinha, morta em um estacionamento de supermercado em São Paulo em 2018; o da gata Nina, morta a pauladas dentro de um supermercado em Paraty, Rio de Janeiro, em 2019; o do pit bull Sansão, que teve as patas traseiras decepadas em Confins, Minas Gerais, em 2020; o do buldogue Costela, espancado até a morte por um servidor público em Rio Grande, Rio Grande do Sul, em 2022; e, mais recentemente, o caso do cavalo que teve suas patas cortadas pelo próprio dono após ser forçado a cavalgar quilômetros e cair de exaustão, em agosto de 2025.
Para especialistas, o caso do Orelha não é um episódio isolado, mas parte de um fenômeno mais amplo de violência extrema entre jovens, alimentado pela exposição constante a conteúdos violentos e pela dessensibilização à dor alheia em ambientes digitais. Segundo a juíza Vanessa Cavalieri, crianças e adolescentes podem passar a ver a violência como algo normal ou até como forma de pertencimento e reconhecimento em grupos online.
Por isso, o caso do cão Orelha não é apenas sobre quem bateu no cachorro. Ele fala do ambiente que permitiu que isso acontecesse e que permite que isso ainda aconteça. Fala da demora em punir, se é que se pune. Fala do “deixa pra lá”. Fala do “é só um cachorro”, “é só um animal”. E essas últimas frases dizem muito, porque quase sempre começa assim: primeiro é “só um cachorro”, é “só um animal”; depois, é “só um morador de rua”; depois, é “só alguém diferente”. A régua da dignidade vai descendo, pouco a pouco.
O Orelha não tinha advogado, não tinha poder, não tinha voz; ele tinha apenas um corpo vulnerável e, tenho certeza, muito amor para dar. E é exatamente aí que a ética começa: não quando protegemos os fortes, mas quando assumimos responsabilidade pelos que não conseguem se proteger, se defender, revidar um tipo de violência tão vulgar como o desse caso.
O que está em jogo nesse caso não é apenas punição, mas memória moral. É lembrar do efeito disso. Se esse episódio virar apenas mais uma notícia que passa, aprenderemos pouco; mas, se ele nos incomodar, se nos obrigar a pensar na educação que estamos oferecendo e na sensibilidade que estamos formando, talvez a morte de Orelha não tenha sido apenas um fim, mas um aviso.
Porque uma sociedade que se acostuma com a dor dos seus mais frágeis vai, sem perceber, ficando treinada para aceitar dores maiores.
Não é só sobre um cachorro.
É sobre a linha que separa civilização e barbárie.
E essa linha não está em nenhum mapa que os humanos criaram até hoje.
Ela passa, todos os dias, dentro de nós.
Justiça pelo Orelha. E pelos tantos outros que passaram, e passam, ignorados.
Ouro Branco/MG, 1° de fevereiro de 2026.
Wiler A. do Carmo Jr.
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Esta coluna também foi publicada no jornal O Alto Paraopeba. Leia aqui.
Fontes
AGÊNCIA BRASIL. Cachorro comunitário é morto com dez tiros em ponto de ônibus em São Paulo. Agência Brasil, 30 jan. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-01/cachorro-e-morto-com-dez-tiros-em-frente-ponto-de-onibus-em-sp. Acesso em: 31 jan. 2026.
Caso Costela. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2022. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Costela. Acesso em: 31 jan. 2026.
Caso da cadela Preta. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2005. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_da_cadela_Preta. Acesso em: 31 jan. 2026.
Caso do cão Orelha. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_do_c%C3%A3o_Orelha. Acesso em: 31 jan. 2026.
Caso Manchinha. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2018. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Manchinha. Acesso em: 31 jan. 2026.
Caso Sansão. Wikipédia, a enciclopédia livre, 2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Sans%C3%A3o. Acesso em: 31 jan. 2026.
FARIAS, J. Suspeitos de matar cão Orelha tentaram afogar outro cachorro, diz polícia. CNN Brasil, 27 jan. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sul/sc/suspeitos-de-matar-cao-orelha-tentaram-afogar-outro-cachorro-diz-policia/. Acesso em: 31 jan. 2026.
PINA, R. ‘O que adolescentes fizeram com cão Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, ao vivo no Discord’, alerta juíza Vanessa Cavalieri. BBC News Brasil, 29 jan. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1dkyzp9xv9o. Acesso em: 31 jan. 2026.
SODRÉ, I. Gata é morta a pauladas dentro de mercado em Paraty (RJ). G1, 08 jan. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2019/01/08/gata-e-morta-a-pauladas-dentro-de-mercado-em-paraty-veja-video.ghtml. Acesso em: 31 jan. 2026.
BERTOLACCINI, A. J; FARIAS, J.; PALHARES, F. Cavalo mutilado: animal caiu por exaustão após ser forçado a cavalgar 15 km. CNN Brasil, 19 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/cavalo-mutilado-animal-caiu-por-exaustao-apos-ser-forcado-a-cavalgar-15-km/. Acesso em: 31 jan. 2026.
